Dreadline Express - Análise

Os moradores dos grandes centros urbanos já estão acostumados com o transporte em trilhos. É ar-condicionado que não funciona ou te congela, atrasos bizarros, quando é privatizado pega fogo, etc. Mas esses problemas são típicos dos vagões destinados a atender o deslocamento dentro das cidades. A pegada é outra quando pensamos num tipo carente de exemplos no Brasil devido a nossa baixa malha ferroviária, que são os trens de viagem como o presente em Dreadline Express.
Estes são aqueles típicos trens que você vê como cena de crime num filme de suspense ou que marcam grandes separações em romances, animes ou outras obras. Eles são compostos por vagões com cabines particulares e uma área comum para quem não quiser ficar trancado no quarto durante a viagem. É nesse ambiente mais pessoal e transitório que a história de Dreadline Express foi projetada para acontecer.
Acompanhamos a narrativa a partir de um personagem que, a princípio, não sabemos quem é, e nosso objetivo é entender o que está acontecendo e qual nosso propósito neste lugar. Para isso, seguimos uma abordagem de investigação não-linear, como uma investigação de verdade, guiada pela lógica e curiosidade. Mas será que Dreadline Express consegue chegar ao seu destino?

Condução Metroidbrainiana
O loop de gameplay em “Metroidbrania” criado pelo estúdio é, de longe, a ideia mais interessante que o jogo oferece. Basicamente, não sabemos quem somos ou porque estamos no trem, mas temos acesso à cartas que nos permitem interagir com o cenário e NPCs. Por exemplo, uma carta de luz pode ajudar a interagir com um ambiente escuro e, assim, acessar uma nova carta que permite novas interações. Não fica difícil deduzir, por esse fragmento, que “brainia”, derivado de brain, vem desse elemento de puzzle. Já “metroid” é tão literal quanto os jogos da franquia Metroid, há uma estrutura não-linear que deixa o jogador decidir onde explorar primeiro em busca de uma informação que lhe seja útil para progredir.
Considero essa sacada do estúdio o elemento mais legal para interagir com os puzzles do jogo, principalmente pelo quanto eles são flexíveis. Isso acontece porque é possível combinar até três cartas diferentes para interagir, então as possibilidades são amplas e as cartas têm nexos lógicos ricos entre si. Por exemplo, você possui uma carta sobre a esposa e outra carta sobre perda. Combinar as duas pode servir para falar sobre a perda da esposa com alguém. Mas também tem uma carta sobre a filha, que ao ser adicionada ao último par, muda a pergunta de esposa para família. É essa nuance semântica que engaja o jogador nesse expresso, pois estimula a criatividade e o uso do raciocínio para achar mais cartas e, consequentemente, ir desvendando a história do jogo.
Todavia, tem um aspecto negativo que pode vir a ser um problema para alguns jogadores, o qual classifico como um “softlock argumentativo”. Este decorre da natureza abstrata e interpretativa do jogo e acontece quando a pessoa entende o que o puzzle quer ouvir, mas falha na hora de comunicar isso através do jogo. Não é um problema incomum em jogos de puzzle e não é como se fosse um evento recorrente em Dreadline Express, de modo geral esse fenômeno só aconteceu comigo duas vezes, mas pode ser que isso te faça querer procurar um guia em algum momento.

Uma viagem consistente
A respeito da arte no geral de Dreadline Express, não diria que ela tem grandes destaques. As músicas cumprem seu papel. A ambientação consegue criar uma sensação de desconforto coerente e hostil, mas falta um impacto atmosférico. E o texto, por mais que entregue um grau de nuance e mistério, não possui camadas narrativas que provoquem grandes reflexões, é mais provável que o jogador consiga inserir significado nos eventos de Dreadline Express pela sua bagagem cultural prévia do que o jogo seja capaz de transmitir uma ideia nova. Todavia, nenhum desses aspectos são falhos a ponto de serem ruins, pelo contrário, por mais que não se destaque em nada, ele é consistente do início ao fim, o que entrega uma experiência sólida e valorosa.

Chegamos ao nosso destino
Dreadline Express pode não ser nada revolucionário ou impressionante, mas claramente é um bom jogo que se destaca com sua ideia de estrutura Metroidbrainia e vale a pena ser jogado por qualquer pessoa que tenha interesse em narrativas misteriosas, puzzles lógicos e busque uma experiência consistente.

Análise escrita por @Athena_Wofel A cópia do jogo foi cedida pela Shoreline Games





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